ConcertinoPortal de pesquisa da música clássica

Os mais famosos compositores da linha do tempo

GARCIA, JOSÉ MAURÍCIO NUNES (1767-1830)

Última modificação : Segunda, 24 Agosto 2015 16:25



(Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1767 — 18 de abril de 1830)

 

É a personalidade mais importante da música brasileira no período colonial. Sua importância não se restringe somente ao campo composicional, mas abrange também a figura do intérprete e do pedagogo.

 

Nasceu e faleceu no Rio de Janeiro, 1767-1830, onde desempenhou todas as suas atividades musicais. Seus pais eram descendentes de escravos. A carreira eclesiástica teria sido uma saída para a ascensão social e a possibilidade de estudar e se dedicar à musica. Especula-se sobre sua formação musical, havendo notícias de que estudou com o musicista mineiro Salvador José. Na antífona Tota Pulchra, para coro a 4 vozes, com solo de soprano, flauta e cordas, composta aos dezesseis anos, já aparecem as qualidades do criador.

 

Com 17 anos assina o "compromisso de fundação" da Irmandade de Santa Cecília, misto de organização religiosa e sindical da época. Esta participação marca o início de uma vida de trabalho musical exaustivo que afetou profundamente a saúde do musicista anos mais tarde. Aos 25 anos foi ordenado sacerdote e em 1798 é nomeado maestro da Capela da Sé e Catedral do Rio de Janeiro, onde, no entanto, já atuava como músico e compositor . As atividades musicais nas igrejas, na época, eram intensas. José Maurício atuava como organista, compositor e regente, não apenas na Catedral, mas em outros templos, destacando-se a Igreja da Irmandade de São Pedro dos Clérigos, da qual também fazia parte.

 

Mas, a atividade de professor já havia começado em 1798, com seu curso gratuito de música, que atendia aos jovens pobres. Tal curso foi o celeiro de músicos para a Sé, depois Capela Real e Imperial, bem como para as atividades operísticas da Cidade. Lá formaram-se cantores, instrumentistas e compositores, bem como modinheiros, já que o padre era um deles. Foi a "aula gratuita", por sua vez, que inspirou um de seus discípulos na criação de um estabelecimento maior e gratuito de ensino musical: Francisco Manuel da Silva foi o fundador e primeiro diretor do Imperial Conservatório de Música, hoje a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Destacaram-se entre seus alunos Francisco da Luz Pinto, Cândido Inácio da Silva, Joaquim Thomaz da Cantuária, embora nenhum tenha atingido a qualidade artística do mestre. A atividade de professor não se limitou às aulas. Escreveu manuais teóricos, destacando-se o "Compêndio de Música e Methodo de Pianoforte", escrito para seus filhos José Maurício Jr. e Apolinário, este último organista profissional.

 

Como intérprete, era aplaudido improvisador e competente redutor de partituras orquestrais ao teclado. Esteve sempre informado das novidades musicais europeias, apesar das dificuldades de comunicação. Foi o regente da primeira audição no Brasil do Requiem, de Mozart e, possivelmente, também da Criação, de Haydn.

 

Durante a permanência de João VI no Brasil, viveu a fase áurea de sua vida, apesar das perseguições do "Salieri português" Marcos Portugal, sendo condecorado com o hábito da Ordem de Cristo. Porém, as exigências ao compositor e regente minavam sua saúde. Foi nessa época que chegou ao Brasil o compositor austríaco Sigismund Neukomm, discípulo de Haydn que, impressionado com a qualidade artística de José Mauricio, escreveu um artigo publicado na Europa onde chamava a atenção para o mestre brasileiro.

 

A volta do Rei para Portugal e os acontecimentos seguintes causaram a decadência total da Capela Real e de toda a atividade artística no Rio de Janeiro. José Maurício doente e sem recursos financeiros ainda sobreviveu quase nove anos, compondo e atuando dentro das suas possibilidades.

 

A figura do compositor, porém, é a de maior interesse. Restam hoje acima de duas centenas de composições de José Maurício, sendo a maioria absolutíssima de música religiosa. Não faltam ao catálogo obras instrumentais, corais não religiosas e duas modinhas. Destacam-se obras primas como as Novenas de S. Pedro, Nossa Senhora do Carmo e Santíssimo Sacramento; os motetos para voz solista e orquestra Te Christe solum novimus e Creator alme siderum; os motetos para coro e orquestra Tanquam aurum e os dois motetos em honra a S. João Batista; motetos para coro a capela e pequenas jóias como os hinos e ofertórios. Pontos máximos da obra são a Missa de requiem, de 1816, inspirada na de Mozart e a Missa Santa Cecília sua última obra e última atuação como regente. Na Missa Santa Cecília parece ter deixado tudo o que restava de sua força física e da sua inspiração numa despedida à vida e à arte.

 

Texto de: Ernani Aguiar

 

Principais obras:

 

. Modinhas: Beijo a mão que me condena; No momento da partida.

 

. Música dramática: Le Due gemelle; Coro para o entremês, 1808; O Triunfo da América, 1809; Ulisséia, 1809.

 

. Música instrumental: Doze divertimentos, 1817.

 

. Música orquestral: Sinfonia fúnebre, 1790; Sinfonia tempestade.

 

. Música sacra: Tota pulchra es Maria, 1783; Ecce sacerdos, 1798; Bendito e louvado seja, 1814 e 1815; Christus factus est, 1798?; Miserere para Quarta-feira de trevas, 1798; Judas mercator, 1809; Matinas da ressureição, 1809?; Libera me, 1799; Missa de requiem, 1799; Ofício de defuntos, 1799; Missa de requiem, 1809; Missa de requiem, 1816; Missa de Santa Cecília, 1826.

 

Ocupou a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música

 

 

Fonte original do artigo:

abmusica.org.br